14 novembro 2006

de caras com a realidade

O metro desta cidade é impressionante. Primeiro pelos seus 100 anos acabadinhos de fazer. Já daí se percebe os problemas que o envolve, as obras constantes, a manutenção que aos fins-de-semana altera todo o mapa, a linha verde corre na azul, a vermelha fecha, a cinzenta só faz metade do percurso e por ai adiante.
Algumas das estações são mesmo imundas, outras tais que até disfarçam bem, mas nenhuma escapa aos seus habitantes comuns e permanentes de dimensões consideráveis, ratos e ratazanas com fartura!
A diversidade das linhas também é de considerar. Existem diferentes cores, dentro da mesma cor números e letras diferentes, cada uma tem percursos diferentes, mas muitas delas fazem o mesmo percurso numa determinada parte da cidade, há uns que são expresso e não param em todas as estações e ainda os locais que param em todas.
Percorrem do mais longínquo ponto de Brooklyn, passando pela famosa Manhattan, até ao ponto mais recôndito de Bronx ou Queens. Muitas regras e ainda mais excepções às regras! Parece confuso mas com a prática deixa de o ser.
A diversidade dos utilizadores do metro também é considerável. Pessoas de todas as cores e tamanhos, diferentes formas, bonitos e feios, pobres e ricos! E se lá de vez em quando acontece te cruzares com uma cara famosa também acontece que te aparece pela frente a verdadeira realidade dos arredores desta cidade.

Estava eu sentada no metro que partia do aeroporto, em Brooklyn, atravessando a cidade, a caminho de casa, em Queens. Já lá vão cerca de dois meses que isto se passou.
Ao meu lado uma rapariga nova com três filhos, duas meninas e um menino com idades entre os cinco e sete anos, faziam o mesmo percurso que eu.
Aparentemente uma família típica dos subúrbios muito pobres. Uma mãe de poucos sorrisos, cabelo apanhado, argolas douradas gigantes, casaco de cabedal preto com desenhos pespontados a branco, enorme, calças apertadas de ganga e botas amarelas que parecem as botas dos trolhas! A imagem típica de uma miúda de bairro de Brooblyn profundo.
As crianças irrequietas olhavam pela janela enquanto o metro passava pela superfície. Ao entrar para o nível subterrâneo lá sossegaram e as meninas acabaram por cair no sono vencidas pelo cansaço.
Foi então que o menino decidiu sentar-se ao meu lado, pulou para o banco sem pedir licença, bateu-me com as botas pesadas e … a mãe repreendeu-o educadamente e mandou-o pedir-me desculpa. Coisa rara, é de louvar a educação que é escassa nesta terra.
Assim que meti conversa com o menino a realidade apareceu-me bruta e crua à minha frente:

_ O meu nome é Brandon! A minha irmã chama-se Melissa e a outra é Jessica.
Depois seguiu-se o nome pelo qual chamavam a mãe e o nome verdadeiro da mãe, _ sim, porque ela tem um nome verdadeiro, mas ninguém sabe, mas eu sei.
_ e eu também tenho um pai, ele não esta aqui, mas eu tenho um pai. A polícia levou-o, eu vi! Mas ele não está na prisão, a minha mãe diz que ele está na casa de um amigo.
… e agora? O que é que eu digo? A mãe nem o repreendeu… o que é que eu lhe digo? …”ahhhh muito bem….” Não posso dizer isso, não posso dizer nada…. Mas tenho que dizer alguma coisa…
_ Então tens que fazer um desenho para enviares ao teu pai! Sabes fazer desenhos?!
…puff, desta safei-me.

Depois ele contou-me onde morava e que estava a mudar de casa e que a mãe estava a mudar de trabalho, e que fazia desenhos de cores nos papéis brancos…a vida dele numa viagem de metro que poderia ser uma passagem de um filme, daqueles que só costumamos ver na televisão.

6 comentários:

Anónimo disse...

e a nossa vida nao e', afinal, um filme? uma longa metragem?...
Beijinho

p.s. bem precisava de Metro aqui... mesmo que fosse assim velhinho!

guevara disse...

foi o teu filme caseiro.

Anónimo disse...

acho que esses momentos valem bem uma viagem de metro. como se de um bilhete de cinema se tratassem...

sofia disse...

mais do que um filme... o problema é que isso é a realidade! melhor seria se no fim de tudo saísses do metro e afinal não passava de um filme!

ss disse...

bem....toda a gente se mete contigo no metro! desde meninos a portugas!! :)
gostei da historia.
bjo

elisabete duarte disse...

Pois ss, e' da minha cara laroca! ...(convencida!) Pois e', a historia da Diana tb era bem contada aqui! Vou ver se a escrevo ;)